Segunda-feira, 08 de Fevereiro de 2010
12.3.2008

Jornadas da Constituição

Resumo das Jornadas da Constituição - Lisboa, 8 e 9 de Março de 2008

Sessão Formal de Abertura

Estiveram presentes o Dr. João Almeida, enquanto Secretário-Geral do CDS/PP, e João Condeixa, enquanto coordenador do Projecto Constituição.

Esta sessão, para além de uma abertura formal das Jornadas, representou o primeiro momento de reflexão sobre a Constituição da República Portuguesa, tendo o Dr. João Almeida apresentado algumas das suas interrogações quanto à pertinência e actualidade de algumas disposições constitucionais. Desta intervenção retiramos três notas fundamentais: (i) inadmissibilidade da existência de limites materiais de revisão; (ii) inadequação dos preceitos que impõem a obrigatoriedade da existência de sistema público de educação, saúde e segurança social; e (iii) existência de uma constituição ideologicamente comprometida limitando uma verdadeira liberdade de escolha de projectos políticos.



1.º Painel - O que é a Constituição: Antecedentes. A Constituinte. Os Princípios Fundamentais

Este painel esteve a cargo do Professor Doutor Tiago Duarte e do Professor Doutor Miguel Nogueira de Brito. O primeiro apresentou a CRP como um "milagre", uma vez que, apesar de todas as circunstâncias que rodearam a sua elaboração, surgiu como uma Constituição de compromisso e até hoje mostrou não ser um empecilho ao desenvolvimento do país nem comprometer as escolhas dos cidadãos. Deste modo, considera o Professor Tiago Duarte que não há uma verdadeira "questão constitucional em Portugal". Defendeu também este docente que, em termos do que é fundamental numa constituição - organização do poder político -, a CRP tem cumprido exemplarmente o seu papel, adaptando-se as todas as realidades políticas dos últimos 30 anos.

O Professor Miguel Nogueira de Brito centrou a sua intervenção na questão da revisão constitucional defendendo que, se por um lado os limites materiais de revisão apenas garantem a integralidade e unidade da Constituição de 76, os chamados limites temporais de revisão têm-se revelado como um dos seus maiores problemas, sendo que as revisões de 1997 em diante têm sido inúteis. Defendeu ainda este professor que se a CRP em matéria de defesa dos direitos liberdades e garantias dos cidadãos e de organização do poder político é exemplar, no que toca a vários aspectos da constituição económica deveria ser revista no sentido de lhe retirar algum cunho ideológico e temporal que ainda subsiste.



2.º Painel - A Constituição e a Economia

Este painel contou com a presença de Pedro Moutinho, na qualidade de gestor, e de Beatriz Soares Carneiro, como advogada. Esta última começou a sua intervenção por explicar as circunstâncias históricas, políticas e sociais em que surgiu a Constituição de 76 e por definir o que se entende por "constituição económica", apresentando várias das disposições constitucionais com influência na economia. Defendeu ainda que numa lógica mais adequada ao século XXI e às modernas correntes do direito, que entendem o serviço público não como aquele que é prestado pelo Estado, mas antes como o serviço destinado à comunidade que se rege por padrões de universalidade, igualdade, livre acesso e se enquadra na função prestadora do Estado, a constituição económica deveria abandonar a noção de exclusividade do Estado na prestação de serviços como a educação, saúde ou segurança social a assumir o principio da subsidiariedade. Pedro Moutinho fez uma visita guiada à Parte II da CRP, referente à «Organização económica» do Estado, e mostrou, através do comentário aos seus 27 artigos, o quanto esta Parte II está desadequada, ultrapassada e totalmente desactualizada face ao mundo da globalização, das economias de mercado e da integração económica e monetária. Deu também inúmeros exemplos reais, da vida das empresas, através dos quais podemos verificar que a intervenção do Estado é genericamente má, despropositada e na maioria dos casos leva a consequências pouco benéficas para a vida das empresas e da economia. Defendeu, neste sentido, uma redução drástica do número de artigos relacionados com a organização económica e pôs o acento tónico na liberdade de iniciativa e no funcionamento do mercado, com especial atenção, porém, ao sector da regulação.





3.º Painel Os Direitos Fundamentais na Constituição

O Mestre Jorge Pereira da Silva foi o responsável por este painel dedicado aos direitos fundamentais, fazendo uma claríssima exposição sobre a evolução histórica dos direitos fundamentais desde a Revolução Francesa (onde "nasceram" os chamados direitos de liberdade, ou de 1.ª geração) até aos dias de hoje (época dos direitos verdes, culturais e tecnológicos, ou de 4.ª geração) e demonstrando como todas as gerações de direitos convivem em perfeito diálogo na CRP. Apresentou, de igual modo, os Direitos Fundamentais, como uma das áreas nucleares de qualquer constituição, defendendo que a CRP faz uma síntese perfeita dos vários tipos de direitos, liberdade e garantias. Distinguiu, por último, os Direitos Liberdade e Garantias, consagrados como deveres de omissão por parte do Estado, dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais que impõem ao Estado uma acção no sentido de os concretizar ou promover, admitindo, nesta matéria, a possibilidade de alguns acertos pontuais.



4.º Painel A Constituição e o papel do Estado na Sociedade

O Professor Doutor Raul Rosado Fernandes apresentou a sua visão sobre aquele que tem sido o papel do Estado na sociedade e concluiu que um dos grandes problemas de Portugal é a inexistência de Estado no que é fundamental e a sua omnipresença no acessório. Lembrou que uma das causas do atraso português, apontadas por vários autores, é o permanente desrespeito pela propriedade e pela iniciativa privadas e a existência de inúmeros monopólios de Estado. Fez toda uma intervenção centrada na lógica da diminuição do peso do Estado na vida dos cidadãos, sobretudo a nível da economia e da política fiscal.



5.º Painel Outras Constituições: O paradigma da Constituição Americana. Constituições na Europa e Europa Constitucional

Este painel foi conduzido pelo Dr. Paulo Portas, presidente do CDS/PP, que iniciou a sua intervenção por considerar que a CRP é um factor de bloqueio social, económico e cultural, profundamente datada e ideologicamente condenada. Defendeu que as constituições devem ser ideologicamente descomprometidas, de modo a abrigar os vários projectos políticos que possam surgir na sociedade, e que, no essencial, devem limitar-se a definir as regras da organização do poder político e garantir os direitos e deveres dos cidadãos. Fez depois uma visita guiada às constituições dos países da "nova Europa", mostrando como em nenhuma delas se encontram as marcas ideológicas do passado que encontramos na CRP, razão pela qual estes países são constitucionalmente muito mais competitivos que Portugal. Concluiu dizendo que, embora a CRP de 2008 seja consideravelmente melhor que aquela que foi aprovada em 76, não é, nem será nunca, a constituição ideologicamente neutra e politicamente consensual que permita abrigar um liberal ou um conservador e um socialista sobre o mesmo "chapéu-de-chuva" constitucional.



Encerramento: Uma experiência na Constituinte

O Senhor General Galvão de Melo, não apenas nos deu o prazer da sua presença e intervenção ao longo dos 2 dias de trabalho das Jornadas, como foi a ele que coube o seu encerramento, com uma nota sobre o ambiente que se vivia na Assembleia Constituinte e sobre a sua apreciação da realidade constitucional dos últimos 30 anos. Desta forma, fizemos, com o Senhor General, uma visita histórica ao período que antecedeu o 25 de Abril de 74 e aos meses que se seguiram, tempos de convulsões políticas e sociais, até se fazer eleger a Assembleia Constituinte. O Senhor General defendeu o seu voto contra a Constituição, o único dos 250 deputados constituintes a chumbar o projecto, por a considerar uma Constituição ideologicamente comprometida e marcadamente agarrada ao passado já à época em que foi aprovada.

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